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Dunkirk | Crítica

Um bom filme, mas não de guerra

Dirigido por Christopher Nolan. Roteiro por Christopher Nolan. Com Fionn Whitehead, Damien Bonnard, Aneurin Barnard, James Bloor, Barry Keoghan, Mark Rylance, Tom Glynn-Carney, Tom Hardy, Jack Lowden, Will Attenborough, Kenneth Branagh, Harry Styles, James D’Arcy, Cillian Murphy.

Christopher Nolan é um dos diretores mais contestados da atualidade. Ame-o ou deixe-o. Não há espaços para meio termos. Com filmes no currículo como a trilogia Batman, Interestelar e A Origem, o diretor, que começou empilhando sucessos, dá sinais de que atingiu um plateau criativo e/ou operacional. Continua tecnicamente impecável, óbvio, mas muito menos inovador. Infelizmente, nessa fase, surge Dunkirk.

O filme é muito competente ao estabelecer uma narrativa tripartite e intertemporal. Na história, acompanhamos a evacuação das tropas inglesas e francesas da praia de Dunquerque, que estava sitiada pelo alemães nazistas, no início da Segunda Guerra Mundial. Para isso, acompanhamos três frontes que se desenrolam em lapsos temporais distintos: na praia, vivemos uma semana; no mar, um dia; no ar, uma hora. Ao mesmo tempo que prazorosa, pois diferente, essa forma de narrativa traz consigo o ônus de que já saibamos o desfecho de alguns personagens, antes da conclusão “em sua linha temporal”.

tom hardy dunkirk

Assim, em terra, vemos as tentativas de Tommy (Whitehead) em sair com vida da praia, passando a frente dos demais soldados; no mar, acompanhamos Mr. Dawson (Rylance), Peter (Glynn-Carney) e George (Keoghan), indo ao resgate dos soldados em um pequeno barco pesqueiro, uma vez que foram convocados pelo governo inglês; por fim, no ar, estaremos na cabine de Farrier (Hardy) que lidera outros dois pilotos para escoltar os destroyers e os pequenos barcos civis, que são constantemente atacados por caças nazistas.

Um dos principais pontos positivos da obra é, sem dúvidas, sua plasticidades artística. Com uma fotografia ampla, e ótimos ângulos das asas dos aviões, o filme é digno de salas IMAX. Ademais, as cenas em que a câmera fixa vira junto com o barco causa certa desorientação no espectador, fazendo a imersão ao trabalho muito mais plena. Dentro do caça, os movimentos rápidos da mira e a perseguição são sensacionais, já que não vemos como terceiro espectador, mas sim como um piloto.

dunkirk mark rylance

Outro grande acerto é a edição e a mixagem de som que casa perfeitamente com a trilha de Hans Zimmer – o qual conseguiu revitalizar sua carreira de forma incrível, tirando-o da mesmice onde estava estagnado. Não é difícil imaginar que Dunkirk concorrerá aos Oscars no que toca à sua sonoplastia. Os estouros dos torpedos ou o barulho dos motores dos aviões reverberam de forma magistral, mas não apenas isso, os ecos da voz dos soldados quando estavam presos no barco encalhado, ou o abafamento dos sons na cabine dos pilotos são ótimos exemplos da perfeição sonora do filme.

Há certo questionamento que se pode fazer quanto à bestialização do inimigo. Filmes como Sniper Americano e Até O Último Homem são completamente simplistas ao retratá-lo. No momento em que se lança mão de mostrar “o outro lado da linha”, deve-se fazer da forma correta; não basta mostrar um antagonista demoníaco desprovido de sentimento ou razão. Entretanto, Dunkirk consegue ser sufocante no momento em que mostra a ameaça alemã de forma onipresente e avassaladora. Em nenhum momento existe menção ao nome de Hitler ou ao nazismo, todavia, sua presença está no medo constante causado às tropas. Não há brechas a questionar as intenções de um inimigo invisível.

dunkirk kenneth brannagh

Embora acerte muito na parte técnica, o filme perde na parte humana. Com bons atores subaproveitados, o filme demora a cativar quem o vê. O núcleo marítimo é o que mais se aproxima de tal feito, mas, mesmo assim, não conseguem sustentar todo o trabalho. Com muitas vezes com o rosto tapado por máscaras de oxigênio, Hardy trabalha quase que integralmente apenas com os olhos, o que é um revés para a obra. Lógico, há cenas muito emocionantes, os olhos lacrimosos do comandante Bolton (Brannagh) em primeiríssimo plano ao olhar os barcos civis e chamá-los de casa, bem como a mentira contada por Peter ao soldado interpretado por Cillian Murphy, possuem uma carga emocional enorme se comparadas ao resto do filme.

Diferente de outros filmes de guerra, onde trazem uma crítica implícita a sua desnecessidade, como, por exemplo, o Mel Gibson o faz através da violência desacerbada (no já mencionado Até O Último Homem), Coppola o fez nas cenas cada vez maiores de Apocalypse Now, ou Oliver Stone trabalhou através do paralelo entre o assassino fanático e o idealista pacifista (Platoon, eternizado por Willem Dafoe), Dunkirk é meramente frio no sentido de retratar a guerra de forma quase documental. Não coube à obra criticar o conflito pelo motivo que fosse, apenas a retratou como um fato.

Na verdade, tamanha sua frieza que ao final, o resultado pouco importou. Com os soldados chegando em casa, ouvimos um discurso calculista de Winston Churchill, disfarçando, através do otimismo e compreensão, seu sentimento de derrota. E assim saímos quando as luzes acendem: desolados, maquiando nosso sentimento de que a obra foi impecavelmente bem feita, quando, na verdade, existiam muito pontos a serem melhor trabalhados.

Nota: 4/6 (Bom)

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servidor público. co-criador da Catacrese. amante das telas e das páginas. cinéfilo. cinemófilo. cinemafílico. cinemático. cinestésico. cinemafóbico. wannabe writer.
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