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A Forma da Água | Crítica

Como já diria o ditado: há sempre um pé torto para um chinelo velho.

Dirigido por Guillermo del Toro. Roteiro por Guillermo del Toro e Vanessa Taylor. Com Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones, David Hewlett, Nick Searcy.

De todas as formas que pode se manifestar, o amor é sentimento mais inexplicável que existe. Seja na paixão, no erotismo, na amizade, ou (nesse caso) na empatia, o sentimento mais belo surge de forma arrebatadora e muda a vida de todos que o envolvem.

Com isso em mente, del Toro – se recuperando do pífio, mas belo, A Colina Escarlate – nos traz para A Forma da Água, a um mundo com ares de Amélie Poulain. A fotografia sombria e, por vezes, surrealista serve para dar o contorno de fábula que o romance precisa ser contado. Na trama, Elisa (Hawkins), muda desde que tem alguma lembrança, faxineira de uma base secreta norte-americana, se apaixona por um ser aquático (Jones), que é cobaia para experimentos durante a Guerra Fria.

A paleta azul-esverdeada, que muitas vezes é usada para lançar mão de tons frios, aqui muda sua ênfase para ficarmos submersos. Sem frieza alguma, somos convidados a nos afogar em um romance em sua forma mais pura. Elisa, nunca completamente compreendida em virtude de sua deficiência, e um ser anfíbio, retirado de seu habitat natural, mas com inteligência psicológica e emocional para compreender os seres humanos a sua volta.

O design de produção esplêndido é uma constante nos trabalhos do diretor e produtor. Com mise-en-scène belos e provocativos, o espectador sempre sente que algo destoa da realidade, mas nunca há grande certeza no quê. Seriam as cores? A disposição dos móveis? Ou seriam as cenas climáticas ao som de Carmen Miranda?

Se existe uma palavra capaz de definir o elenco como um todo é carisma. Sally Hawkins é uma gigante interpretando a muda Elisa; enquanto Octavia Spencer (Zelda), sempre com atuações seguras, é a amiga preocupada e compreensiva. Michael Shannon (Richard), talvez um dos atores mais talentosos hoje, é um vilão digno da fábula que o envolve e Richard Jenkins se destaca por sua serenidade e por suas singelas cenas com Elisa.

De forma doce, Guillermo del Toro surpreende trazendo conto de fadas sobre o descobrimento do amor. Não importam aqui as diferenças biológicas, aliás, isso nunca é argumentado no filme. Há, sim, curiosidades quanto a anatomia do ser anfíbio, mas a questão de que ambos são de diferentes espécies nunca foi uma barreira, nem pelos amantes, nem por aqueles que os orbitavam.

Definitivamente, com A Forma da Água, del Toro consegue dar a volta por cima e entregar um romance com sua assinatura e carimbo, embora não inove no enredo. Com um tema clichê (a superioridade animal do ser humano), em um mundo em que espécies de animais vivem em constante perigo de extinção e a ganância do homem parece não enxergar as consequências de seus atos, é revigorante ver ainda que vale a pena lutar pelo bem de uma espécie e, principalmente, do amor.

Nota: 5/6 (Muito Bom)

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servidor público. co-criador da Catacrese. amante das telas e das páginas. cinéfilo. cinemófilo. cinemafílico. cinemático. cinestésico. cinemafóbico. wannabe writer.
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