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It: A Coisa – 1º Capítulo | Crítica

Novo filme de terror veio para virar referência e, sem dúvida, é a melhor adaptação de um romance de Stephen King para as telas

Direção de Andy Muschietti. Roteiro por Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman. Com Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Bill Skarsgård, Nicholas Hamilton, Jake Sim, Logan Thompson, Owen Teague, Jackson Robert Scott, Stephen Bogaert.

A Coisa é um dos maiores romances de Stephen King. Escrito e idealizado com capacidade ímpar, o Mestre do Terror, ao longo do livro, mostra que o monstro que nos assola vai muito além do palhaço que come criancinhas. Em 1990, a primeira adaptação do livro em minissérie tornou-se cult tão somente pela atuação fantástica de Tim Curry. Mas não passou nem perto de sua essência. O mesmo não pode se dizer de 2017.

Na trama, Bill (Lieberher), após perder seu irmão caçula, Georgie (Scott), percebe que a cidade está sendo assolada por um palhaço assassino (Skarsgård). Ao conversar com seus amigos, percebem que esse é um mau recorrente e que, a cada 27 anos, Derry sofre com catástrofes e tragédias.

O Clube dos Otários

Passando-se na década de 80, o filme pode parecer cópia de Stranger Things (para ajudar, Wolfhardt é um desses garotos) para os mais desavisados, mas não se esqueçamos que o romance foi publicado em 1986. Enquanto a obra televisiva intercalava o período adulto com a infância (mostrando Seth Green como Ritchie Tozier e Annette O’Toole como Beverly Marsh adulta), aqui o filme é mais linear, de sorte que foi dividido em duas partes. Portanto, apenas as crianças aparecem dessa vez.

Extremamente profissionais, os pré-adolescentes conseguem cativar e emocionar. Com a câmera na altura deles, os adultos constantemente aparecem em contra-plongeé e são mais ameaçadores que o normal. Nesse ponto o acerto é evidente. No romance, o Clube dos Otários percebe que a Coisa dominou a cidade inteira, de modo que ela ignora e, até mesmo, colabora, para suas tragédias – uma releitura perfeita das descrenças da época adulta. Em cenas rápidas como um casal de idosos ignorando quando Ben (Taylor, parecendo ter saído diretamente dos livros) apanha dos bullers ilustra perfeitamente a influência do monstro na cidade.

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Com muita competência, o diretor argentino, Andy Muschietti, consegue constrastar a placidez da cidade pequena, com a violência com que o palhaço ataca, ou uma casa mal-assombrada e claustrofóbica – diga-se de passagem, com um mise-en-scéne clássico dos filmes de terror antigos. Outro grande acerto argumentativo, foi dar ênfase no relacionamento de Bev (Lillis) com seu pai abusivo (Bogaert). Intencionalmente, a personagem aqui foi feita mais forte e mais presente que no romance original, sendo uma das mais profundas – embora todos seja muito bem trabalhados. Na verdade, Bev só vê a Coisa quando está junto dos outros garotos, já que seu monstro é real e vive com ela.

Dessa vez temos um Pennywise muito diferente do de Tim Curry. Independentemente de ser melhor ou pior, Skarsgård tem um approach menos amistoso que Curry, o que o afasta um pouco da essência do personagem. Na verdade, a Coisa sempre precisou se alimentar de medo, mas, para isso, se aproximava de suas vítimas de forma amigável e carismática (o que, de fato, fazia o contraste entre a aparência inofensiva e a real ameaça); agora, Skarsgård, desde o início parece aterrorizante, fazendo, inclusive, menos piadas, afastando-se do Pennywise original.

Tim Curry vs. Bill Skarsgård

O roteiro, escrito a seis mãos, acerta ao remover os momentos mais polêmicos do romance (a cena de sexo entre as crianças e a do animal morto na geladeira, pouco teriam a acrescer), transformando-os em outros menos impactantes, já que a mensagem do elo entre eles poderia ficar distorcida. Com isso, manteve-se pura a ligação entre todos.

Um dos maiores atributos de Stephen King é a capacidade de transformar em personagens as cidades em que passam suas tramas. Tal qual Aluísio Azevedo (O Cortiço), o autor norte-americano em romances como Os Estranhos, Trocas Macabras, A Coisa, Sob a Redoma, consegue dar vida a um sentimento coletivo e local. De repente, essa seria a maior dificuldade em transferir a literatura para o cinema. Em sua primeira adaptação (1990) It: A Coisa não conseguiu fazer Derry falar, agora, em 2017, podemos vê-la pronunciando suas primeiras sílabas. Isso é fantástico.

Nota: 5/6 (Muito Bom)

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servidor público. co-criador da Catacrese. amante das telas e das páginas. cinéfilo. cinemófilo. cinemafílico. cinemático. cinestésico. cinemafóbico. wannabe writer.
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