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mãe! | Crítica e Análise

Travestida de bucolismo, Aronofsky nos entrega sua masterpiece, provocando angústia em metáfora da teoria criacionista

Dirigido e escrito por Darren Aronofsky. Com Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson, Jovan Adepo, Amanda Chiu, Patricia Summersett, Kristen Wiig.

Atenção: esse texto conterá spoilers do enredo.

É sempre uma experiência exaustiva ir ver um filme de Darren Aronofsky. Independentemente de juízo de valores, seus filmes indubitavelmente nos levarão à falência psicológica. Depois da derrapada em Noé – onde fez uma abordagem mais “carnal”, por assim dizer – o diretor volta aos temas religiosos, mas, dessa vez, através da metáfora e melhor do que nunca.

É muito complicado tentar entrar nas miudezas do roteiro sem entregar muita parte das intenções do filme. Na trama, um casal que vive tranquilamente em sua casa de campo vê a rotina mudar bruscamente quando um homem desconhecido bate à sua porta.

A atuação impecável de Jennifer Lawrence, rendida à situação que a cerca é sufocante. Ao se ver em meio de um total descontrole, a atriz, sozinha, nos contagia com seu pavor. Javier Bardem, ora carinhoso, ora irado, vira um verdadeiro antagonista, pois nos desperta desconfiança e suspeita. Ed Harris – em uma fase espetacular após sua atuação em Westworld – e Michelle Pfeiffer são os responsáveis por trazer, com maestria, ares de O Bebê de Rosemary, pois aparentam saber mais do que revelam aos seus anfitriões, muitas vezes, parecendo compartilhar de algum segredo junto a Bardem.

mãe michelle pfeiffer

A fotografia do filme é irretocável a partir do instante em que, quando sozinhos em casa, a casa é arejada, iluminada, e os planos são abertos e agradáveis. À medida que vão chegando desconhecidos, a câmera fica gradativamente mais perto de Lawrence, aumentando a agorafobia. Aliás, quando feliz (Lawrence, a mãe), o campo que cerca a residência é belo, com a floresta longínqua e inofensiva; a partir do momento que o ambiente vai ficando hostil, a floresta parece se aproximar, a ponto de ameaçar engolir a casa inteira. Aliás, a trilha sonora, inexistente em certos momentos, contribui para a construção da atmosfera tensa.

Estabelecido pelo espectador que o filme é uma alegoria religiosa – o próprio Bardem, em um dos momentos mais didáticos do filme, revela que cada um entendeu seu poema de forma diferente – cabe a cada um de nós entender o que nos for mais conveniente.

Bardem (O Poeta, Artista), é Deus, nos créditos apenas identificado como Ele. Com isso, a Mãe (Lawrence) é vista como a Natureza. Note que é ela quem constrói a Casa (a Terra), sempre pensando em como agradaria mais o Poeta (você realmente o ama, já diria Pfeiffer). A partir do momento em Ele sofre de um bloqueio artístico, a casa se vê invadida por um casal, Harris e Pfeiffer (personificando Adão e Eva) e seus filhos (Caim e Abel). Todos os elementos remetem à teoria criacionista, inclusive, o assassinato de um irmão pelo outro.

Após comerem o fruto proibido (a destruição do cristal e o sexo), os estranhos são expulsos e o casal volta a viver em paz, e ela engravida. Coincidentemente, a inspiração para a nova poesia vem no mesmo momento, de sorte que, ao ficar pronta, a editora (Wiig, fazendo o papel da Igreja) é a responsável por distribui-la (disseminar a palavra). A partir desse momento, vemos todos os males do mundo: guerra, brigas de rua, fanatismo religioso, doenças, saqueamentos, execuções, etc.

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Ao nascer a criança, roubada por Ele, o povo a ergue de braços abertos; o bebê é quebrado e comido – o corpo e o sangue de Cristo -, causando a fúria da Mãe/Maria. Ao explodir a casa, o único que sobra intacto é Ele (eu sou o que sou), que reconstrói a casa ao lado de outra Musa.

Da mesma forma que se vê Bardem como Deus, considerando se tratar de um filme de Aronofsky, que sempre trabalha com excelentes personagens femininas (vide Cisne Negro), o inverso também pode ser verdade (cada um entende o poema de forma diferente, não se esqueçam). Aqui, embora muitos elementos se assemelhem, Lawrence seria a própria Entidade Divina – é ela que entrega seu coração nos cartazes –, enquanto ele seria a religião/crença. A crença precisa da Mãe para se inspirar. Vejam que é ela quem constrói a casa sozinha – na Bíblia, quem constrói o Éden é Deus. Assim, ao ver todo o caos que impera pela palavra da religião, a Mãe percebe que o único jeito seria ela destruir a casa (Terra, no livro do Apocalipse), mesmo que isso cause sua morte. Entretanto, a religião sobrevive, e, mesmo com a morte da Entidade Divina, ela encontra outro ser para idolatrar, começando novamente o ciclo.

Das duas hipóteses, a mais niilista seria a segunda e, considerando o espírito, do diretor e roteirista, não seria de se espantar que fosse sua real intenção. Aliás, embora ambas tenham elementos da teoria criacionista, a segunda versão se enquadra mais no conceito geral de crença e religião – esgotamento pela fé – de modo que eu, particularmente, prefiro pensar que o diretor quis ser mais abrangente.

Idealizado para ser gigante e provocativo, mãe! vai muito além da religiosidade. Misturando Stanley Kubrick e Lars Von Trier, Aronofsky nos esmigalha e deprime através da matáfora com elementos como machismo, misoginia, intolerância e a sociedade autofágica como um todo.

Digna do título que carrega, a obra é admirável em todos seus espectros. Uma verdadeira obra-prima, assim como nossas mães.

Nota: 6/6 (Ótimo)

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servidor público. co-criador da Catacrese. amante das telas e das páginas. cinéfilo. cinemófilo. cinemafílico. cinemático. cinestésico. cinemafóbico. wannabe writer.
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