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Marshall | Crítica

Quando o machismo e o racismo medem forças

Dirigido por Reginald Hudlin. Roteiro por Jacob Koskoff e Michael Koskoff. Com Chadwick Boseman, Josh Gad, Kate Hudson, Sterling K. Brown, Dan Stevens, James Cromwell, Keesha Sharp, Roger Guenveur Smith, Derrick Baskin, Barrett Doss, Zanete Shadwick, John Megaro.

Em certo momento, após o primeiro encontro com seu cliente, Thurgood Marshall é questionado por Bertha Lacaster: por que mulheres mentiriam ser estupradas, Sr. Marshall? Essa pergunta retumbaria durante todo o resto do filme, em um caso que coloca frente a frente a discriminação de raça e a de gênero. Sem saber a resposta no momento, Marshall não compreende o peso que esse questionamento teria no futuro.

Com muito ímpeto, Marshall é um filme biográfico. A trama acompanha um dos primeiros casos do jovem Thurgood Marshall (Boseman), o primeiro juiz afro-americano da Corte Suprema Americana, que trata da defesa de Joseph Spell (Brown), um negro que trabalhava para Eleanor Strubing, uma socialite branca (Hudson) e submissa ao marido, que o acusa de estupro.

Assim, em ambos os lados, há pessoas oprimidas. Se por um lado temos um negro vivendo à margem no estado racista de Connecticut, de outro, temos a mulher que teme o desprezo, não só da comunidade, mas teme as agressões do marido. Aliado a isso, há Sam Friedman (Gad), o advogado judeu obrigado a atuar no caso, e Loren Willis (Stevens), o promotor elitista e racista que atua na acusação.

Se por um lado o argumento-base acaba trazendo uma discussão densa – quase uma provocação sobre qual preconceito predomina em relação ao outro –, o roteiro escrito por quatro mãos acaba cedendo aos clichês de um típico filme de tribunal. Estão lá vários dos recursos narrativos que estamos acostumados: os insuperáveis insights durante as oitivas das testemunhas, os silêncios dramáticos antes de uma resposta, a resistência do juiz (Cromwell) em acatar os pedidos da defesa. Assim, mesmo com potencial, esse empobrecimento do texto, aliado ao histórico do diretor em episódios de séries televisivas, faz o filme entrar em uma roda de closes sem impacto e plot twists previsíveis.

Ao mesmo tempo que o roteiro e a direção pendem para o usual, o elenco extraordinário faz a diferença e traz o grande destaque do filme. Enquanto Boseman faz uma grande atuação como Marshall, o verdadeiro destaque fica por conta de Gad e Brown. Enquanto o primeiro mostra a evolução perfeita do advogado mecânico para alguém que se (re)apaixona pelo ofício e assume seu papel na luta pela igualdade, o último, com seus olhos arregalados e lacrimejantes, justifica todos os prêmios ganhados por This Is Us e The People v. O.J. Simpson: American Crime Story, e nos emociona sempre que está em cena. Aliás, Dan Stevens e James Cromwell fecham o elenco principal de forma muito competente, reforçando o sentimento segregacionista existente até hoje. Kate Hudson tem grande atuação também no momento em que leva sua personalidade enigmática até o último segundo; não como discernir se Eleanor sente raiva, alívio culpa ou arrependimento, já que são emoções perfeitamente cabíveis no momento, mas que dependem da leitura de cada espectador.

Muito mais do que um mero longa de tribunal, Marshall tem o mérito de ser provocativo até onde seu roteiro permite e revitaliza o espírito trazido por O Sol é Para Todos (1962) de combate ao racismo incrustado na sociedade. Um caso emblemático em que um advogado negro foi proibido de falar em julgamento e, mesmo assim, lutou até o fim para defender o acusado. Enquanto alguns podem dizer que isso é mimimi, filmes assim são necessários até que a ferida sare. Como bem dito por Thurgood, enquanto alguns veem apenas um negro no banco dos réus, para ele, é uma nação inteira.

Nota: 4/6 (Bom)

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servidor público. co-criador da Catacrese. amante das telas e das páginas. cinéfilo. cinemófilo. cinemafílico. cinemático. cinestésico. cinemafóbico. wannabe writer.
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