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Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississippi | Crítica

A terra não vê cor

Dirigido por Dee Rees. Roteiro por Virgil Williams e Dee Rees. Com Garrett Hedlund, Carey Mulligan, Jason Clarke, Jonathan Banks, Jason Mitchell, Rob Morgan, Mary J. Blige, Kerry Cahill, Dylan Arnold.

Assim como um texto – afinal provém de um –, um filme precisa estar sempre muito atento ao seu argumento, sob pena de fugir do tema ou ficar deveras abrangente. Mudbound se enquadra perfeitamente no segundo caso; embora costuradas competentemente, as diferentes premissas acabam por causar certo estranhamento ao espectador já que 130 minutos acabam sendo poucos para mostrar todas as chagas da sociedade.

A trama se passa na década de 40, quando a vida de duas famílias (uma negra e uma branca) se cruza no Mississippi. Os McAllan – compostos pela mulher submissa, duas filhas pequenas, o marido distante e seu pai racista – e os Jacksons – uma família negra com cinco filhos, claramente no intuito de ajudar na agricultura familiar. Mesmo com todas as limitações impostas pelo mundo, Hap Jackson (Morgan) permite sua família sonhar; tudo que eles quiserem ser, serão.

Narrado em diferentes momentos pelos seus mais diversos personagens, o filme ganha um tom introspectivo e melancólico. Entretanto, se por um lado o filme ganha alcance ao mostrar os dramas de cada um (sempre com o racismo de pano de fundo), por outro ele fica com aspecto raso por apenas pincelar algumas críticas: a esposa infeliz e submissa, por exemplo, fica esquecido em meio ao filme. Aliás, esse é outro ponto em que há uma quebra de expectativa no texto do filme, no momento em que Ronsel (Mitchell) e Jamie (Hedlund) retornam da guerra, o filme se vira para o relacionamento de ambos, de modo que os demais personagens, antes protagonistas, viram meros coadjuvantes. Até nisso há uma metáfora, enquanto Jamie, caucasiano, é capitão e piloto de jatos, Ronsel, negro, é sargento e dirige tanques.

O tempo dedicado às diferentes sequelas sociais acaba por deixando o filme moroso e arrastado. O impacto que certos momentos deveriam causar se perde nas diversas frentes abertas na obra, perdendo muito da intensidade.

Mudbound é um filme de elenco uniforme. Sendo uma produção da Netflix, não houve investimento massivo em atores consagrados, de sorte que o elenco é harmonioso em si. A indicação de Mary J. Blige nada mais é do que a culminação disso, pois não há uma cena isolada que justifique sua indicação. Contudo, a canção Mighty River, que também concorre ao prêmio da Academia, possui uma letra forte, pertinente e atual em relação aos problemas tratados.

A fotografia espetacular é responsável por dar razão ao título do filme, a lama e o barro são presenças constantes no ambiente. Está na roupa, na pele, na casa. De todos. Seja preto, branco, rico ou pobre, a terra é a mesma para todos, é ela que absorve o suor, as lágrimas e o sangue, e é para ela que todos vamos ao cabo.

Há um momento no filme em que Hap olha para Ronsel e diz desiste, não adianta discutir, eles sempre vão vencer. A triste história de negros libertos mas que são inferiorizados e hostilizados até hoje. Ao fim, há a esperança de dias melhores. Nas palavras da bela Mighty River: o tempo não conta mentiras, ele continua mudando e se movendo até que passa. Se você tiver sorte, ele vai ser generoso, como um rio fluindo através do tempo.

Nota: 5/6 (Muito Bom)

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servidor público. co-criador da Catacrese. amante das telas e das páginas. cinéfilo. cinemófilo. cinemafílico. cinemático. cinestésico. cinemafóbico. wannabe writer.
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