hotel overlook o iluminado

O Iluminado – Stephen King | Resenha

Aviso: esse texto contém spoilers da trama.

Enquanto muitos conhecem Stephen King através d’O Iluminado, esse foi o meu décimo sexto romance dele. Já conhecia muito bem o estilo de suas histórias; O Iluminado, todavia, choca em um nível bem mais íntimo.

O romance possui, ao todo, quatrocentos e sessenta páginas, isto é, é relativamente pequeno para os padrões de King. Contudo, possui uma característica única que o distingue dos outros, qual seja, a quantidade diminuta de personagens principais. Quem conhece A Dança da Morte, A Coisa, Sob a Redoma, entre outros, sabe do que se trata.

O Iluminado possui míseros três personagens bem construídos (quatro se contarmos algumas poucas partes de Hallorann). Por óbvio, estamos falando da família Torrance. Jack, o pai da família, ex-alcoólatra (ex?), irritadiço, infância infeliz e com histórico de agressão ao filho, mas que o ama incondicionalmente; Wendy, esposa, mulher submissa, com uma mãe abusiva na tormentosa infância, apaixonada pelo marido, mas com certo ciúme quanto à proximidade desse com o filho; e Danny, o menino de ouro, não há defeitos dele que se possa salientar no livro; um anjo; o iluminado, isto é, possui características telepáticas, mediúnicas e, até mesmo, premonitórias.

O livro é impactante especialmente pela brusca ruptura nesses laços familiares ou, melhor dizendo, o leitor (Fiel Leitor, como o autor gosta de chamar) é forçado a conhecer todos os integrantes da família, entendendo o porquê de suas atitudes, e, sim, é possível ler, transbordando nas entrelinhas, o amor que cada um possuía pelo outro. O ponto nevrálgico do romance (e o que mais fere) é a cumplicidade entre Jack e Danny. O afeto era tamanho que, muitas vezes, Wendy parecia uma estrangeira entre eles.

Por ser tudo muito íntimo, o clímax é de romper o coração. Podemos entender o choque que há entre Wendy e Danny contra Jack no momento que eles começam a demonstrar certo escapismo para alienar o pai da figura demoníaca com um martelo: começam a defini-lo apenas por “a coisa”.

Um fator do livro que serviu para ampliar à décima potência todos esses conflitos foi a escolha do local. Se todo o enredo ocorresse em um local não isolado, o leitor não sentiria esse sufoco. A história se desenrola no Hotel Overlook, um local amaldiçoado, que, nos invernos, fecha as portas devido ao acúmulo de neve nas estradas de acesso, resultado do rigoroso inverno do Colorado (Stephen King escreveu o livro enquanto estava morando nesse estado e essa sensação de deslocamento que ele quis transpassar era a mesma que ele sentia, já que não estava em sua terra natal, no Maine).

Em verdade, a sensação mais predominante durante a leitura é a de isolofobia. A ausência de recursos que se apresenta aos “mocinhos”, mostra, ao leitor, a nulidade de defesa. Não se trata de um ambiente, necessariamente, confinado ou fechado, mas a sensação nasce do isolamento do local e pelo fato deste não possuir ferramentas.

O destaque negativo é o personagem Hallorann, que foi, até certo ponto, bem apresentado e desenvolvido, mas possui relevância supérflua. Sua presença é puramente “deus ex machina”, mostrando certa pobreza no esclarecimento nos dons de Danny. Embora ele exerça a função de guia e, de fato, dá mais dinamismo à história, essa se desenvolveria muito bem sem a sua presença. Aliás, sua presença obliterou de certa forma o papel de Wendy. Ele introduz, inclusive, o termo iluminado e o que eles podem fazer, mas, além disso, não fez nada de mais, pois poderia ser substituído por Wendy.

Enfim, O Iluminado é um belo livro para ser apreciado; é obrigatório para todas as bibliotecas do mundo. Para aqueles que são apegados ao seu núcleo familiar, há de se ter brios de aço. Não há mente que permaneça sã depois de um conflito assim.

Os reflexos disso? Eles podem ser vistos em Doutor Sono, mas isso é assunto para outro texto.

Nota: 5/6 (Muito Bom)

Leia mais sobre O Iluminado.

servidor público. co-criador da Catacrese. amante das telas e das páginas. cinéfilo. cinemófilo. cinemafílico. cinemático. cinestésico. cinemafóbico. wannabe writer.
(Visited 18 times, 1 visits today)
0

Post Author:

servidor público. co-criador da Catacrese. amante das telas e das páginas. cinéfilo. cinemófilo. cinemafílico. cinemático. cinestésico. cinemafóbico. wannabe writer.