O Justiceiro | Crítica

Repetindo alguns erros, O Justiceiro surge como a série mais crítica da parceria Marvel/Netflix

Criada por Steve Lightfoot. Com Jon Bernthal, Amber Rose Revah, Ebon Moss-Bachrach, Ben Barnes, Jaime Ray Newman, Kobi Frumer, Paul Schulze, Michael Nathanson, Ripley Sobo, Daniel Webber, Jason R. Moore, Kelli Barrett, Tony Plana, Deborah Ann Woll

Um dos maiores orgulhos dos norte-americanos é a chamada Segunda Emenda à Constituição, aprovada em 1791, em meio aos ideais libertários da Revolução Francesa, que é o direito de portar armas de fogo. Mais de duzentos anos se passaram e, cada vez mais, esse diploma legal vem sendo alvo de críticas de juristas e intelectuais por um simples motivo: armas não evitam violência.

micro o justiceiro

O Justiceiro veio para provocar exatamente esse pensamento no espectador. A trama continua o primeiro arco do segundo ano de Demolidor, ou seja, Frank Castle (Bernthal) vai atrás do responsáveis pela morte de sua família. Junto disso, se envolve em uma trama de espionagem militar que coloca toda conduta da CIA em xeque.

Mais visceral que as séries anteriores, a violência aqui é no intuito de causar desconforto. Não sou poucas as vezes o sangue escorre nas telas. Aqui, Castle e seus aliados levam tiros e matam. A mortalidade é uma presença constante na vida de todos. Todo dia pode ser o último.

No que toca ao elenco, a série consegue ser mais cativante de uma forma geral. Bernthal consegue ser brutal e comovente como antiherói, enquanto Barnes (Billy Russo) e Moore (Curtis Hoyle) evidenciam duas formas completamentes diferentes de superar os traumas da guerra; enquanto o último os enfrenta pelo enfrentamente cotidiano, o outro tenta esquecer e justificar suas ações.

o justiceiro

Micro (Moss-Bachrach, parecido demais com o Andy Serkis) funciona como um contraponto perfeito à essência de Castle. Enquanto o Justiceiro busca vingança pela morte abrupta de sua família, Micro precisou se afastar deles para mantê-los protegidos, mas, mesmo assim, via-os todos os dias pelos monitores.

Deborah Ann Woll continua uma Karen Page cada vez mais forte e independente e, aqui, é somada com Rose Revah (Dinah Madani), uma agente federal determinada a ir ao fundo do mistério, mesmo que fragilizada pela morte do parceiro. Portanto, continuando o legado das demais séries, o elenco feminino é muito acertado, de sorte que os primeiros diálogos entre Page e Madani são repletos de meias palavras e ameaças veladas.

o justiceiro ben barnes billy russo

Webber parece condenado a fazer o papel de soldados traumatizados e frustrados. Repetindo seu papel de Lee Harvey Oswald (em 11.22.63), aqui ele vive Lewis Walcott, que ponto nuclear de uma trama secundária, mas que serve muito para expor as preocupações temáticas de forma clara e didática.

O deslocamento é uma constante ao longo da obra. Nos primeiros episódios, a câmera sempre filmava Castle de forma deslocada, deixando um dos lados vazios, apenas com paisagem, de forma que nos causa uma certa sensação de desequilíbrio. Na medida em que o enredo evolui, Castle é centralizado, evidenciando que o protagonista voltou a encontrar um propósito (I am home).

Repetindo os erros das demais séries, O Justiceiro muitas vezes parece alongar desnecessariamente cenas e tramas para justificar seus treze episódios. Justamente o ponto que foi o maior acerto da segunda temporada de Demolidor (dividir um ano em dois enredos autônomos, mas harmônicos), as demais séries parecem não querer repetir.

Adicionando novos elementos à discussão dos atos de heroísmo, a antiga dicotomia herói/vigilante ganha um novo ponto: o terrorismo.

Em seu primeiro ano na Netflix, O Justiceiro surge como um antiherói simples mas envolto por sombras. Através de seus coadjuvantes, a série foi enriquecida com complexidade e com a lembrança constante de que, embora vá além do razoável, há luz, sim, nas intenções daquele que veste a caveira.

Nota: 5/6 (Muito Bom)

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servidor público. co-criador da Catacrese. amante das telas e das páginas. cinéfilo. cinemófilo. cinemafílico. cinemático. cinestésico. cinemafóbico. wannabe writer.
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