O Pôster do Festival de Cannes e Sua Polêmica

Conhecido por sua ousadia, em 2017 festival de cinema dá dez passos pra trás

Não é novidade que o mundo é misógino. Mais especificamente: não é novidade que o cinema é misógino. Eu (e nesse texto irei lançar muita mão da primeira pessoa) sempre admirei personalidades femininas do gênero cinematográfico. Atrizes como Viola Davis, Angelina Jolie, Charlize Theron, Maryl Streep, sempre tiveram (e terão) minha total adoração; assim como diretoras: Kathryn Bigelow, Sofia Coppola, Ava DuVernay, Patty Jenkins são alguns exemplos da infinita qualidade que o gênero feminino acresce ao cinema.

O Festival de Cannes, um dos festivais de cinema mais conhecidos atualmente, e importante por ser o primeiro termômetro para o vindouro prêmio da Academia, sempre ousou. Na verdade, essa é praticamente uma condicional do cinema francês, valorizar a ousadia e a irreverência. Helen Mirren, ganhadora do Oscar de melhor atriz por A Rainha, em uma entrevista falou que gosta da maneira que os franceses encaram as mulheres e gosto da maneira como as mulheres são abordadas em filmes franceses. De fato, o roteiro de um filme francófono — geralmente — é mais sofisticado que um norte-americano.

E aí reside a problemática. Como um festival francês, conhecido por seu feminismo acentuado, que muito já ousou em seus pôsteres — basta ver que no final da década de setenta, as pinturas dos cartazes exibiam seios ou nádegas — peca em algo tão grotesco que é tentar feminilizar ainda mais algo que já era belo?

Pôsteres do final da década de 70.

O cartaz em questão retrata a atriz italiana Claudia Cardinale, hoje com 78 anos, durante uma de suas filmagens; o fotógrafo é desconhecido. A atriz, sinônimo de beleza, rodopiava em uma saia longa enquanto ria naturalmente, com seus cabelos ao vento. De fato, é uma imagem que por si só retrata tudo o que o referido festival tenta transmitir.

Entretanto, ao comparar ambas as fotos, percebe-se que alguns traços foram modificados. No cartaz percebe-se, claramente, que cintura e pernas foram afinadas e o pé diminuído.

A atriz, vítima desse photoshop desnecessário, inutilmente tenta defender a si (pois, obviamente, é muito frustrante pensar que os organizadores a enxergam apenas como um objeto) e ao festival. “Quero responder a esta falsa polêmica que não tenho comentários a fazer sobre o trabalho artístico realizado nessa imagem”, disse a estrela, explicando que o cartaz não representa somente seu corpo, mas também uma dança, uma roda, e que o retoque da imagem acentuou este efeito de leveza (sic) e a projeta como uma figura de sonho. “A preocupação com realismo não faz sentido aqui”, ela afirmou, dizendo-se feminista convicta e que não viu nenhuma agressão ao corpo da mulher. Por fim, a atriz concluiu que há coisas bem mais importantes a discutir no mundo. E tudo isso é só cinema, não esqueçam.

Sinceramente, preciso respeitosamente descordar desta defesa incabível.

De fato, o cartaz alude ao efeito de leveza que ela alegou, mas não é uma leveza física. A leveza que sentimos é pela alegria e pela espontaneidade que a modelo projeta. Não são alguns centímetros de cintura e coxas que vão me fazer pensar diferente. Aliás, o corpo é objetificado, sim, fazer essas mudanças (que indubitavelmente possuem conotação sensual) é “tentar” deixar o cartaz mais agradável aos olhos misóginos. Apenas isso.

Quanto às coisas mais importantes a discutir é algo completamente ridículo de se comentar. Nessa linha de raciocínio sempre iremos preterir algum assunto em prol de outro. Não se (des)qualifica um assunto alegando a (des)importância de outro. É um argumento pobre e triste. O problema deve se resolver dentro de si mesmo em não traçando comparativos com outras questões sociais.

Por fim, não existe só cinema. Cinema é uma arte de alcance estratosférico. Diminuir o cinema em uma frase assim é mostrar que ela mesma não dava o valor que a profissão dela merece. Cinema forma, transforma e muda opiniões. Crítico e reflexivo por essência.

Tentando ser belo, o Festival de Cannes transformou seu cartaz em um comercial de cerveja.

servidor público. co-criador da Catacrese. amante das telas e das páginas. cinéfilo. cinemófilo. cinemafílico. cinemático. cinestésico. cinemafóbico. wannabe writer.
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