o segredo da cabana

O Segredo da Cabana | Espaço do Leitor

 

Os filmes de terror, hoje em dia, são um festival de clichês. Esperamos uma verdadeira diarreia mental quando a sinopse caracteriza o filme de “terror adolescente”. Diferentes filmes usam o mesmo silogismo barato para elaborar um roteiro; a premissa A concatenada à premissa B geram a conclusão esperada e isso é absoluto. A verdadeira magia de O Segredo da Cabana está em, desde o início, mostrar que essa lógica não se aplica ao filme, ou melhor, se aplica, mas nos surpreende mostrando que há diversos outros fatores a serem considerados.

Elaborar um resumo desse enredo sem revelar spoilers é uma tarefa hercúlea, mas vou tentar. O filme começa com dois funcionários de uma fábrica conversando banalidades e se preparando para mais um dia de trabalho e BAM (sempre quis utilizar uma onomatopeia em um dos meus textos), a cena congela e o título da obra é revelado em vermelho sangue, mostrando que o filme não será um terror usual, mas sim uma sátira do que nos é familiar. Após isso começam os clichês; a cena corta para um subúrbio, onde somos apresentados aos jovens protagonistas, perfeitamente estereotipados: o atlético, o drogado, a virgem, a loira e o gentleman, os quais vão para uma casa de campo comprada pelo primo de um deles (premissa A). Na casa, encontram um porão LOTADO de objetos estranhos, sendo que, entre eles, encontram um diário com palavras em latim. Após lerem essas palavras em voz alta, invocam os antigos moradores do local, que não ficaram nada contentes em serem despertados (premissa B). A todo momento há a mudança de ambiente (da cabana para a fábrica do início e vice-versa), mostrando-nos que ambos, de alguma forma, estão ligados (premissa “?”). Não posso falar mais sem tirar o brilho do filme, mas lhes garanto que esse não é o fim das premissas “?”, que se seguem ad infinitum.

o segredo da cabana chris hemsworth

O elenco é formado por Chris Hemsworth (com atuação absolutamente mediana), Richard Jenkins, Bradley Whitford (ambos confortáveis com suas tarefas de serem o alívio cômico do filme). A produção de Joss Whedon (cada vez mais geek), diretor de The Avengers – Os Vingadores, fica evidente com os papéis de Amy Acker e, o sempre engraçado, Tom Lenk (para o delírio dos fãs de Angel e Buffy, respectivamente). O filme ainda conta com uma ilustre presença ao fim, mas não vou contar para não estragar a surpresa.

Todos nós, espectadores, conhecemos os filmes de cabana. Sabemos como começa e como vai terminar; inclusive, já no início, apostamos todas as nossas fichas nos sobreviventes ou no(a) sobrevivente. Isso é resultado de anos de incessantes marteladas da mesma receita de bolo filme após filme. Para aproveitar essa mesma metáfora, podemos ilustrar O Segredo da Cabana com o seguinte aspecto: enquanto nos outros filmes se junta a farinha, os ovos e a manteiga, nesse, além de termos, ao final, o bolo pronto, sabemos como a manteiga também foi feita.

Além desse lado inovador, o filme garante, no seu clímax, os orgasmos múltiplos dos nerds do mundo inteiro. Podemos encontrar no filme, referências diretas e indiretas a filmes como Evil Dead (pioneiro no aspecto da cabana isolada), Hellraiser – Renascido do Inferno, O Lobisomem Americano, IT – A Obra Prima do Medo e diversos outros que sua mente conseguir buscar.

A crítica apresentada na obra aplica-se diretamente ao mundo contemporâneo. Industrializar o terror é um tema que, atualmente, é bem explorado em filmes (reality shows cheios de morte e sanguinolentos). O que enfraquece essa linha de raciocínio são as motivações pífias ou inexistentes que há por trás da mortandade. O Segredo da Cabana nos dá motivações boas o suficiente para serem digeridas. Em certos momentos, os funcionários da fábrica mencionam seus clientes, isto é, há um rol de entidades que investem para que exista uma tecnologia de ponta, de modo que, na conclusão, entendemos o motivo maior de tudo que aconteceu.

Infelizmente, ao empilhar reviravoltas, Joss e o diretor, Drew Goddard (Cloverfield), derraparam na curva. Se não for isso, acredito que a verdadeira intenção do filme é ir muito além da paródia, invadindo o campo do disparate. Não gosto de pensar, por esse lado; desprezar filmes desse estilo é ofender parte de nossa cultura. Filmes slashers para o público jovem são tão certos e afirmados como a vida ou a morte.

Após tudo isso, concluo que O Segredo da Cabana é um excelente filme. Surpreendente, inovador e insano. Apresenta-se a nós um jogo novo, com as mesmas peças. Entretanto, não há porquê ridicularizar tanto o fim para surpreender o público. Com alguns pequenos ajustes na conclusão, acredito que o filme seria perfeito para encher os nossos imaginários com hipóteses e situações que não demonstradas. Sem isso, fica um gosto amargo de que o que está bom poderia ser muito melhor.

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