três anúncios para um crime

Três Anúncios Para um Crime | Crítica

O que diferencia a justiça da vingança?

Dirigido e roteirizado por Martin McDonagh. Com Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Lucas Hedges, John Hawkes, Abbie Cornish, Samara Weaving, Peter Dinklage, Kerry Condon.

É muito complicado ter a visão eternamente analítica. Indubitavelmente um dia todos nós nos perderemos no limiar entre a justiça e a vingança. Enquanto a primeira é movida por valores éticos e morais, a segunda é o mais puro desejo de buscar a satisfação através da compensação. Assim nos foi ensinado, mas, mesmo que todos nós saibamos disso, é necessário sermos sensíveis e compreender outro ponto: a dor de uma perda cega, e, na perda, somem as barreiras.

É exatamente sobre isso que se trata Três Anúncios Para um Crime. Um filme denso, que mostra a vida de Mildred Hayes (McDormand) após o estupro e assassinato de sua filha. Desamparada pela ineficiência da polícia local, ela decide alugar três outdoors da estrada que leva a sua cidade, Ebbing, Missouri. Com o fundo vermelho e letras pretas de forma, ela questiona o que a polícia fez para resolver o crime. Com isso, desenrolam-se uma série de eventos típicos de uma comunidade pequena, enquanto alguns dizem que a polícia fez o que lhes era possível, outros apoiam as cobranças de Mildred.

Com um roteiro primoroso e atuações impecáveis, a obra se destaca por não apenas ser imparcial a ambas as visões, mas também estabelecer um background complexo para todos os personagens. Enquanto somos tocados pela vida de Mildred – eternamente afetada após a fatalidade –, percebemos também que polícia não podia fazer muito mais do que realmente fez (mas, mesmo assim, podia). McDormand mostra o quão versátil ela pode ser, mesmo atuando em grandes papéis como em Fargo, aqui, ela consegue se mostrar como se carregasse o peso do mundo nas costas, e estivesse prestes a desabar. Harrelson e Rockwell (como o Xerife Willoughby e o policial Jason Dixon, respectivamente) justificam suas indicações ao Oscar pela forma magistral com a qual aprofundaram e deram a importância a seus personagens. O elenco secundário trabalha com esmero em suas devidas cenas, não prejudicando o andamento do trabalho.

O maior mérito do trabalho é, definitivamente, questionar o direcionamento e o contágio da ira da protagonista. Enquanto no primeiro momento ela destinava suas forças contra a polícia, ao melhorar sua perspectiva, acaba precisando focar seus esforços no suposto culpado e, por fim, quando o maior dos desesperos toma conta, contra qualquer culpado. Na verdade, faz-se um bê-a-bá do nascimento do vigilantismo, onde o ódio é proporcional à insatisfação com a justiça.

Sem maniqueísmos, a obra justifica – mas jamais exculpa – o ato de cada um dos personagens. Enquanto Mildred age movida somente por desespero e remorso, o xerife apenas ri de sua própria incapacidade de fazer mais e Dixon é o policial imaturo que vive sob a asa da mãe controladora. Com todos seus grandes defeitos, mesmo assim não deixamos de torcer para que encontrem o que almejam. A mãe busca um encerramento; o xerife, paz; o policial, sucesso.

Sem sombra de dúvidas, Três Anúncios Para um Crime é uma das melhores produções a concorrer aos prêmios da academia. Atual, crítico e provocativo, o filme se destaca em todos os aspectos, principalmente por se relacionar ao mundo raivoso e sedento que vivemos. Que sirva de aviso a todos: no momento em que o ódio toma as rédeas, não há outro caminho senão a frustração.

Leia mais sobre Três Anúncios Para um Crime.

Nota: 6/6 (Ótimo)

servidor público. co-criador da Catacrese. amante das telas e das páginas. cinéfilo. cinemófilo. cinemafílico. cinemático. cinestésico. cinemafóbico. wannabe writer.
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